Como lidar com uma pandemia sem perder a lucidez

21/03/2020

Alguns de nós, em alguns momentos, passamos por uma crise, e em geral experimentamos as do tipo financeira ou de saúde. Normalmente passamos por elas com algum charme, depois de um susto inicial. Nas últimas décadas, podemos listar algumas. A primeira foi o crack na bolsa americana,em 1929, e depois dela muitas outras. Mas, vamos pular no tempo para algo que está bem mais perto de nós, e apenas as mais importantes e que deveriam ter-nos ensinado alguma coisa.

Nenhuma crise puramente económica foi tão grave quanto pode ser o coronavírus.

1973 – Crise do petróleo. O corte de provisão dos Estados que compõem a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) na chamada primeira crise do petróleo, resultado do embargo do petróleo no conflito árabe-israelita. A crise derrubou diversas empresas e podemos considerar a primeira grande crise de nossa era.

1976 – Vírus Ébola. Isolado pela primeira vez, durante a epidemia de febre hemorrágica de ébola na República Democrática do Congo, na época Zaire e Sudão do Sul. Ficou mais restrito a África, mas foi epidémico pelas proporções que tomou em seu curso.

1997 – Crise dos Gigantes Asiáticos. Em julho a moeda tailandesa se desvalorizou. Logo depois caíram as de Malásia, Indonésia e Filipinas, repercutindo em Taiwan, Hong Kong e Coreia do Sul. O efeito que iniciou regionalmente, logo se tornou global.

1981 – Aids. Foi reconhecida como doença. Surgem vários relatos de sintomas em homossexuais nos Estados Unidos. Também em 1981 morre o chamado “paciente zero” naquele país: um comissário de bordo que espalhou a doença em suas viagens.

2000 – Crise das pontocom. Os excessos da nova economia deixaram um rastro de quebras, encerramentos, compras e fusões no mundo da internet e das telecomunicações, e também um grande buraco nas contas das empresas de capital de risco.

2001 – Torres Gêmeas. Os atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas em Nova York e o Pentágono em Washington, que deixaram um balanço de cerca de três mil mortos, provocaram também queda nas bolsas, portanto uma enorme crise financeira que afetou todo o mundo.

2003 – SARS. Detetada pela primeira vez no fim de 2002 na China. Entre 2002 e 2003, um surto da doença resultou em mais de 8000 casos e cerca de 800 mortes em todo o mundo. Atribui-se a origem da doença em gatos-de-algália infetados por morcegos e posteriormente vendidos em mercados.

2008-2009 – A Grande Recessão. Os EUA sofreram a maior crise financeira desde os anos 1930, consequência de um relaxamento na avaliação do risco. O mau momento contagiou o resto do mundo. Resultado da explosão de uma enorme bolha imobiliária.

2009 – Influenza A ou H1N1. Atingiu diversos países e provocou um surto que até hoje ainda se reflete em algumas regiões do mundo. Ainda exige certos cuidados.

2009-2010 – Crise da dívida na Europa. O novo Governo da Grécia reconhece que o défice do país é muito superior ao revelado anteriormente, o que altera o interesse nos mercados por seus bónus. União Europeia (UE) e FMI negociam durante meses um programa de ajuda, enquanto os investidores continuam castigando a Grécia.

Talvez seja isso que causa uma certa incredulidade quando falamos do Coronavirus, agora intitulado de pandemia. O facto de termos passado por esses eventos e ainda estarmos aqui para contar a história, faz com que achemos que dessa vez tudo será mais fácil. Talvez fosse, se tivéssemos aprendido algo com as crises anteriores, mas não foi isso que aconteceu. Aqui, tudo é mais complexo, pois temos dificuldade de aprender com os erros do passado e resistimos a levar a sério os riscos mais iminentes.

Poucas vezes vimos tanta consternação em torno de um evento de saúde. E por que será? Quando um evento similar a um ambiente de guerra acontece, a primeira coisa que se pensa é no desabastecimento, e nesse caso estamos mesmo em um ambiente de guerra e o inimigo é dos mais perigosos, mas isso, de forma nenhuma pode nos deixar insanos. É preciso ter muita maturidade e devemos aprender com os erros e os acertos do passado. A pandemia do momento é o Coronavirus que nasceu na China, onde também nasceu a SARS, e se infiltrou pelo mundo de uma forma agressiva e sem precedentes. Será mesmo sem precedentes? Não. Mas o que se aprendeu com isso? Acredito que pouco, comparado à quantidade de vezes que eventos desse tipo já aconteceram. Não vamos aqui discutir o passado, já que ele de nada ou quase nada serviu para ensinar à humanidade como lidar com situações graves e amplas como essa que estamos vivendo. Vamos, no entanto, ir para uma proposta clara de como nos comportar nesses tempos.

Primeira providência: como não ser um idiota na crise

Não só as pessoas comuns sofrem de alguma ignorância diante da crise, algumas personalidades públicas, na tentativa de preservar suas ideias ou seus lucros, cometem gafes de proporções universais. Um exemplo é Elon Musk, CEO da Tesla, uma renomada empresa na área de tecnologia, tuitou que o pânico sobre o Coronavirus é idiotice e enviou e-mail para seus funcionários dizendo que era mais fácil morrerem em um acidente de carro do que pelo vírus. Ele pode até não ser um idiota em tempo integral, mas durante a crise que passamos ele está a ser. A descrença no vírus ou o seu potencial de destruição tem a capacidade de criar idiotas.

Outro exemplo vem de governantes mais autoritários ou vaidosos, que insistem em negar a existência dos riscos e com isso induzem seus povos e alguns fanáticos, a relaxar, deixando para bem tarde as providências, quando já poderá não haver mais uma solução viável.

Talvez o problema esteja na velocidade que a crise invadiu todo o mundo de um modo quase uniforme. Ninguém e nenhum governo ou entidade estava preparado para o que está a acontecer e isso gera uma quantidade de incrédulos e em alguns níveis “idiotas”. A verdade é que nenhum exagero deve ser condenado. Afinal, o medo gera atitudes tresloucadas, mas pode-se divulgar modos mais cuidadosos para se lidar com o momento. Tem de haver clareza quanto à gravidade do momento, mas não pode haver pânico em nenhuma situação.

A crise já está instalada e o Coronavirus, no final, será o menor dos nossos problemas. Suas consequências, no entanto, serão por um bom tempo razão de grande preocupação. Fora isso, resta-nos agir, independente da opinião contrária de algumas personalidades incrédulas que não tem noção da importância de sua influência.

O lençol de proteção começa consigo

Deixando de lado os idiotas e os insanos, cabe a si providenciar a sua proteção e dos que estão próximos. Você pode criar um ambiente de proteção. O professor de ética e filosofia, da Universidade Carnegie Mellon, em Pitsburg, Alex John London diz, “Nossas ações individuais podem ajudar a criar um lençol de proteção para as pessoas mais vulneráveis que estão entre nós. Ao praticar o distanciamento social, estamos a criar um ambiente mais seguro para aqueles com maior risco sobre o vírus.” Resumindo, não é por nós, os saudáveis e jovens. Podemos facilmente sobreviver à pandemia, mas trata-se de condenar milhares de idosos que tem seu risco aumentado pela nossa insanidade irresponsável.

Compre o suficiente para ficar confortável em casa por um tempo, não como se estivesse num filme de zumbis

Nesses últimos tempos tornou-se piada e até se fizeram alguns memes devido à quantidade de papel higiénico que se compra. De certa forma, parece que um dos sintomas da COVID-19 é a diarreia descontrolada. Até parece que outros produtos não fazem diferença na prateleira. É claro que antes de se gozar com uma pessoa que transporta 40 sacos de papel higiénico, devemos pensar que ela pode estar abastecendo uma entidade com muitas pessoas. Mas não há dúvida que a imagem tem sido de chamar a atenção e não é normal no dia-a-dia.

Deve-se comprar mantimentos em geral, o suficiente para vive duas semanas com algum conforto. Afinal você vai ficar em casa por algum tempo, e devemos nos lembrar que alguns alimentos são perecíveis. Há também o controle dos estabelecimentos comerciais. Alguns vão precisar limitar as compras e quanto mais correria houver, mais cedo eles vão precisar tomar essa atitude.

Tenha cuidado com as crianças

Crianças não são tão propensas a casos sérios de COVID-19, a doenças causadas pelo Coronavirus, mas isso não significa que devem ser negligenciadas. De acordo com Kao-Ping Chua, um pediatra e investigador dos usos exagerados do sistema de saúde, na Universidade de Michigan, “crianças são realmente muito eficientes na disseminação de germes em geral.” De acordo com o Dr. Chua, quando os médicos tratam crianças, eles estão tratando diversas pessoas ao mesmo tempo. “Nós não estamos apenas olhando as crianças diante de nós. Nós estamos a pensar no facto de que as crianças dependem massivamente da família e se alguém da família fica doente, então a criança estará em sérias dificuldades.”

Além das crianças, devemos ter em mente os profissionais à nossa volta. Seja gentil com os profissionais de saúde. Se você ficar doente, há uma pessoa que precisa que você não seja um idiota nessa situação: seu médico. “É sempre importante quando os pacientes são simpáticos,” diz os Dr. Chua. Num momento tão crítico é frustrante as cobranças por atitudes que não tem soluções adiante das que já foram oferecidas. É necessário acreditar que a autoridade médica é a que está a usar um fato e ela deve ter alguma experiência e precisa de tranquilidade para fazer o seu trabalho.

Tanto quanto o vírus o perigo está na desinformação

É normal e diário a disseminação de informações falsas, confusas ou de má qualidade, mas nesse momento, com ânimos acirrados e pessoas em alto nível de desilusão, os aproveitadores têm um prato cheio. As carências pessoais e o oportunismo fazem uma combinação explosiva. As redes sociais, um verdadeiro antro de “médicos”, “especialistas” em tudo, levam as pessoas a um dilúvio de dados desencontrados de proporções bíblicas. No meio desses dados até há muita informação de qualidade, mas como saber o que é verdade? Não há o que fazer, mas tem como diminuir os riscos de se ler matérias sem importância ou mesmo de alto risco, que podem levar você de encontro ao hospital.

A primeira providência é o controle de suas emoções. Nenhuma mensagem escrita, vídeo ou voz é tão importante que precise ser levada a sério no primeiro momento. É preciso ter sangue frio e parar por muitos minutos para entender a seriedade do que está na mensagem. É importante não cair na tentação de compartilhar imediatamente tudo o que recebe, mesmo que pareça real, e esse é o talento contido nessas informações: parecem sempre muito verdadeiras. Guarde para você a informação e se achar mesmo importante, primeiro procure a fonte e a credibilidade dela. Depois verifique na comunicação social de grande porte, se a informação aparece. Mesmo que isso demore um dia inteiro, você terá uma chance de não passar por bobo, ao disseminar uma informação falsa ou ter de ir aos seus amigos se desculpar ou se justificar. A verdade é que esse comportamento deve ser mantido mesmo em tempos normais.

Sacrifícios são necessários

Não entre em pânico diante de casos suspeitos. Talvez já tenhamos estado em contacto com algum infectado, mas não temos noção do que nos aconteceu. O que podemos fazer é ser otimistas. Mas, o mais importante é seguir todas as instruções de segurança e fazermos a nossa parte. Sempre podemos começar em algum momento.

Não custa repetir o que já está divulgado pelos médicos na comunicação social:

  • Lave as mãos, a boca e o nariz o tempo todo. Se abrir portas ou mexer em objetos que não lhe são conhecidos, lave as mãos. Se vai ao supermercado e manuseou produtos, leve as mãos. Ao chegar em casa, lave as mãos. O vírus usa o ar como meio de viajar até os objetos. Ao tocá-los você dá boléia a ele para o levar a outros locais, incluindo a sua boca, sua família etc.
  • Beba água com frequencia. Não em grandes quantidades de uma vez, mas goles durante o dia todo.
  • Evite, de todas as formas, levar as mãos ao rosto. Estando nas ruas, você tocará em coisas e isso, naturalmente poderá promover a sua infecção. Resista e espere até chegar em casa ou no escritório, lave perfeitamente suas mãos e então faça o que precisar fazer com seu rosto, mas de forma geral, evite.
  • Se precisar estar em uma fila, tente manter a distância das pessoas da frente e as de trás. Nesse momento, pedir às pessoas próximas que se afastem, não deve ser interpretado como um ato grosseiro, mas como uma forma de proteger o próximo. Qualquer um deve entender. Caso não entenda, insista. Sua vida deve valer alguma coisa para você.

O isolamento social é parte do processo e não deve ser negligenciado em nenhuma circunstância. Dessa forma você nunca será um idiota nas crises.

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