Nunca deixe nada por dizer

21/10/2020

Há palavras que, por vergonha ou por medo da reação dos outros, deixamos de dizer. Escolhemos o silêncio em vez de partilharmos a nossa opinião ou transmitirmos os nossos sentimentos. Acreditamos que dali a uns tempos já não nos lembraremos daquilo que optamos por não dizer. Ou então, acreditamos que teremos várias oportunidades para o fazer. Pois, mas será que temos esse tempo todo? Será que nos podemos dar ao luxo de adiar o que queremos dizer?

Não. Decididamente não temos. A vida é finita e há coisas que ou se dizem no momento, ou depois perdem a validade, embora continuem a atormentar-nos a mente. As palavras que não saem da boca acumulam-se dentro de nós. E muito rapidamente têm o condão de nos fazer sentir culpados e frustrados por não sermos capazes de dizer o que nos vai na alma. Seja bom ou mau.

António Feio, já numa fase avançada da doença, disse: “Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento, agradeçam e não deixem nada por dizer, por fazer”. Mensagem sábia, esta, de alguém que provavelmente já tinha um vislumbre do final da sua vida e sabia exatamente o que valia a pena para vivermos bem e em paz, sem arrependimentos de última hora.

Este “nunca deixem nada por dizer” é válido para várias realidades. Podemos colocá-lo em prática num momento em que temos uma opinião contrária ao outro; numa situação em que consideramos estar a ser injustiçados e que seja pertinente mostrarmos o nosso ponto de vista, para a nossa própria defesa; quando sentimos necessidade de dar a conhecer o nosso valor, vincando bem qual poderá ser o nosso contributo em determinado contexto; ou tão simplesmente quando queremos dizer um “gosto de ti”.

Tendemos a fugir de tudo aquilo que nos faz sentir vulneráveis. E dizermos o que pensamos a propósito de algo ou o que sentimos por alguém faz-nos sentir com medo, desprotegidos, inseguros perante a avaliação que esse alguém irá fazer. No entanto, seja de bom ou menos bom, o que queremos dizer deve ser dito. Porque amanhã pode já ser tarde. Amanhã, a pessoa pode já não estar cá e, aí, damos conta de que perdemos a oportunidade de resolver aquele mal-entendido, de perdoar ou de dizer o quanto gostávamos dela. Amanhã, o problema que não ficou bem resolvido torna-se maior e cria ressentimento. Amanhã, podemos não estar em paz e de consciência tranquila por termos deixado muita coisa por fazer ou dizer.

Existem pessoas que têm muita dificuldade em transmitir por palavras aquilo que sentem, preferindo o silêncio. À noite, deitam a cabeça na almofada e ruminam aquilo que poderiam ter dito e não disseram, por falta de coragem. Em vez de paz, aquilo que não foi dito traz mal-estar, traduzindo-se, muitas vezes em dores musculares, tristeza, falta de autoconfiança, irritabilidade, depressão. Para preservar o nosso bem-estar emocional, precisamos de nos livrar dessa culpa e aquietar o nosso coração. Sermos iguais a nós próprios, sem receio do que os outros vão pensar, e dizer e fazer o que os outros não farão por nós. No fim, vale sempre a pena.

Nunca deixem nada por dizer. Mas façam-no sempre com assertividade.

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