E agora Fátima, a quem rezamos?

05/09/2020

Desde os primórdios que a religião ou as crenças e seus similares regem a humanidade. Como consequência disso os homens regem a religião, mas esses são uma minoria que detém o poder de dizer como cada uma será vista e entendida pelos seus seguidores. Mas, 2020 está a ser um ano marcante na vida de todos, e nem a religião está imune. A pandemia do novo coronavírus deixou a descoberta algumas fragilidades na Igreja Católica e especificamente no Santuário de Fátima. E, de repente, como uma ideia moderna coloca em risco uma entidade tão antiga quanto a Igreja e suas instituições.

Essa semana surgiu uma novidade no mundo religioso católico que talvez nunca teríamos tomado conhecimento se não fosse a pandemia do Coronavirus. O Santuário de Fátima questiona a possibilidade de pedir concordata devido à enorme baixa dos seus recursos financeiros. Para aqueles crédulos que acham que a Igreja é à prova de falhas, uma má notícia: nesse caso bastou a Igreja querer se parecer com uma empresa para tudo dar errado.

Como se não bastasse, uma pandemia, que mostrou o melhor e o pior lado de diversas coisas, apresentou à Igreja que a humildade ainda era a melhor forma de lidar com pessoas. Mas, isso é uma lição mais difícil e fica para outra ocasião. A grande parte das pessoas, ingenuamente imaginam que as obras do Santuário de Fátima são doações e que tudo que ali está é o resultado da boa vontade de trabalhadores, construtores. Bom… não é bem assim! São homens, com estratégias e planos.

Por algum tempo ainda, Fátima terá essa cara, e deverão ser poucas.

As obras são pagas com dinheiro e as pessoas que lá estão, até hoje, são funcionários, com contratos de trabalho. E, para quem pensa que os padres que lá estão têm as suas despesas cobertas pela Igreja e podem viver apenas da comida e abrigo que recebem, também se enganam, pois são assalariados e alguns bem mais que os outros. E foi aí que a coisa correu mal! Os salários dos padres, reitores e direção do santuário, juntamente com uma queda de 95% no número de visitantes, tem sido a base dos problemas na instituição. O rombo deve-se também ao deficit de hóspedes nas três bases hoteleiras pertencentes ao Santuário, que em três locais teve queda que vai de 3% a 16% de taxa de ocupação.

Ainda há quem pense que os prédios e as decorações, bem como a subsistência de toda a infraestrutura é obra dos santos ou do Vaticano com sua enorme benevolência. Fazem suas visitas e romarias e deixam lá seu “dinheirinho” para os santos, pensando que os pobres beneficiarão dele. Infelizmente é esse dinheiro que sustenta toda a estrutura e quando faltou, mostrou um rombo tão monumental quanto o próprio Santuário.

Em números

Um padre em Fátima recebe um salário de 995 Euros, sem os descontos, mas os diretores e o reitor, o vice-reitor e um diretor recebem perto de 3500 Euros, quase três vezes e meia o salário regular, anterior a 2017. Além disso há outros aumentos que por enquanto são guardados a sete chaves. Grande parte dessa operação foi resultado de uma chamada “gestão empresarial”, que pretende justificar que dirigentes e administradores devem receber mais pelos seus trabalhos. 

Santuário de Fátima visto como muitos poucos peregrinos. Uma raridade.

Além disso, os trabalhos comuns, de recepção de peregrinos, assistência paroquial e muitos outros, que eram feitos por voluntários, passaram a ser feitos por pessoas contratadas o que resultou numa folha de pagamento inflacionada e agora os funcionários têm seus empregos em risco. 

A solução

Tudo poderia passar despercebido se não fosse a pandemia que expôs o quadro e as condições. Nas palavras de Carmo Rodeia, Diretora do Gabinete de Comunicação do Santuário de Fátima, há a necessidade de ajustes. “Serão feitos despedimentos mas de forma responsável e em nome da sustentabilidade do Santuário e para que em nenhum momento possam ficar comprometidas as condições necessárias para o cumprimento da sua missão, que é acolher os peregrinos, o Santuário decidiu implementar este plano de reestruturação para garantir a paz social dentro da instituição”.

Não há uma solução prática a vista. Apenas uma corrida para se manter o funcionamento, ainda que precário, da instituição e o fluxo dos poucos peregrinos que ainda visitam Fátima o ano todo. 

Naturalmente, com a situação da pandemia se resolvendo, os problemas desaparecerão, e a “gestão empresarial” em Fátima, poderá continuar a ser praticada para administrar os milhões de Euros que circulam todos os anos no Santuário.

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