Economia sitiada em 2020

08/07/2020

A semana apresentou a Portugal uma notícia tão desagradável quanto a chegada da COVID-19. Segundo a Comissão Europeia, o otimismo do Governo Português não se justifica. A queda prevista é de 6,9% em 2020. A chave está na imensa queda no turismo, juntamente com as dúvidas quanto à volta definitiva à estabilização económica.

Podemos dizer que se o problema é o turismo, então todo o resto vai bem e estamos todos seguros. Não, não podemos! O mercado é um sistema, uma cadeia interligada, que tende a sofrer interferência de outras peças do mecanismo, provocando reações em cadeia. A pandemia já mostrou que essa teoria funciona plenamente na prática.

As espectativas caem mais do que o otimismo governamental. De 6,9% para 9,8% nas previsões da Comissão Europeia.

Usemos o exemplo do salva-vidas. Sabe-se que o maior cuidado que um nadador salvador tem não são as ondas ou a profundidade, mas sim, ele tem de se preocupar sempre com a possibilidade do afogado, no desespero, o levar para o fundo, afogando os dois. O mesmo acontece com a economia. Um segmento do mercado que esteja em dificuldade, tende a levar outros junto. Daí, podemos considerar que quando falamos que o turismo está em péssima situação, só pensamos nos hotéis. É um pensamento simplista. Diversas outras empresas, que nem sabemos que existem, estão interligadas no processo. Pense que além dos funcionários parados nos hotéis, os fornecedores de produtos para a hotelaria  ficam sem ter quem lhes consuma os produtos, os aviões não tem quem transportar e as lojas dos aeroportos não tem para quem vender livros, cafés, etc. Bom, isso falando de aviões. Se não temos turistas, não temos quem consuma nossas iguarias, sente em nossos cafés, conheça nossas cidades, coma nossos leitões, coma nosso ovos moles, leve nossos azulejos decorados. Podemos parar por aqui?

O tombo é grande

Todos os indicadores económicos mostram uma queda acentuada para esse ano. A pandemia provocou o desemprego, que apesar de se ter mantido estável, em torno de 6%, levou à dificuldade de compra e consumo, levando também ao desânimo moral. O confinamento também provocou o afastamento dos compradores do mercado. Mesmo com a atividade económica em recuperação lenta, muitas empresas ainda vão sentir o peso dos efeitos da pandemia por muito tempo. Os segmentos mais afetados são os de hotelaria e aviação, que devido ao tempo parados e às suas dimensões, demorarão mais para se reerguer. Nessa previsão a Comissão Europeia vê Portugal numa situação mais apertada que o resto da comunidade.

De que vivemos

A economia Portuguesa vinha há algum tempo recuperando e mostrando algum sucesso, ganhando consistência, limpando suas contas e sendo considerada, na União Europeia, uma estrela em ascenção. Mas veio a COVID-19.

Portugal tem hoje a sua economia sitiada, porque todas as áreas dependem umas das outras. Há poucos segmentos que se podem considerar independentes, mas mesmo esses, de alguma forma, tem ligação com outros. Segundo um conjunto de fontes, Portugal depende de três principais áreas para sobreviver: agricultura (11%), indústria de transformação (22%) e os serviços com o resto do percentual (66%). Quando um deles não vai bem, os outros certamente não vão também. 

Em que é que uma coisa tem a ver com outra? Tudo está interligado e o que acontece a um, irá afetar o outro de alguma forma, e no momento, todos estão com problemas.

Mesmo com a abertura das fronteiras, que ajuda a recuperação da economia pelo segmento mais prejudicado: o turismo, há ainda um elemento a considerar: não é uma abertura ampla e irrestrita nem igualitária. Nós abrimos nossas fronteiras para alguns países, mas alguns países não abriram suas fronteiras para nós. Essa abertura parcial impede a recuperação económica plena, pois deixa de fora setores importantes do sistema. 

Um exemplo disso veio na semana passada, com a abertura dos corredores de viagem pelo Reino Unido. 59 países foram beneficiados, mas Portugal ficou de fora devidos aos critérios. Outros países como Espanha, Bélgica, Grécia e Itália foram liberados. Isso significa que se você pretende ir à Inglaterra para um fim de semana, prepare-se para acrescentar 14 dias de quarentena nas suas contas. Portugal não é o único da lista vermelha dos Britânicos, mas certamente será o mais prejudicado, considerando que sua economia está atrelada à uma enorme quantidade de turistas do Reino Unido.

Encerrando o assunto

Portugal precisará repensar suas relações internacionais e aumentar sua presença nas decisões na União Europeia aumentando sua influência nas decisões das comissões e seus membros. Segundo o ministro britânico dos transportes, Grant Shapps, outra avaliação será apresentada no dia 27 de julho. 

Tudo analisado, devemos considerar que o Governo português ainda vai precisar ajudar sua população nas dificuldades que estão ainda sobre a mesa. Será grande a influência das áreas produtivas e de serviços nos resultados económicos para 2020. Nos resta torcer para que não caiam na tentação do paternalismo financeiro e dos patrocínios a fundo perdido para os segmentos prejudicados, ou que se dizem prejudicados. 

Levando em consideração que estamos diante de um cenário parecido com o de 2008, quando Portugal, com muito esforço, ajustou sua economia para iniciar uma recuperação que vinha a recuperar e já aparecia como exemplo de sucesso financeiro, tendo-se endividado imensamente, podemos prever que algo parecido aconteça e nos resta esperar que não se escolha esse caminho.  Como gostamos de dizer nessas horas, está na hora de ensinar a pescar ao invés de dar o peixe.

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