FaceAPP, uma aplicação com duas caras.

16/06/2020

Estamos quase já com um quarto do século XXI cumprido e parece que todo o progresso que vivemos nas últimas décadas, não nos ensinaram a ser mais cuidadosos com nossos destinos. Seja na política, na sociedade e mais recentemente, na tecnologia, nós deixamos sempre que alguém tome conta de nossos interesses. Vale o alerta para quem ainda não percebeu os perigos existentes nas redes e aplicações. 

A internet não foi criada para ser o que é hoje, mas acabou sendo. Podemos considerar que a primeira utilização da rede se deu em 1969, com o que podemos considerar o primeiro e-mail, contendo o texto “LOGIN”, escrito pelo Professor Leonard Kleinrock da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) para o computador no Stanford Research Institute. Infelizmente o computador que recebia a mensagem, parou de funcionar após receber a letra “O”. Mas, não era o mais importante. Estava lançada a internet.

Foi a partir desse evento que em 1970, o governo americano autorizou o desenvolvimento de uma rede que interligasse computadores, mantendo-se ativa, independente do resultado de grandes catástrofes, visando a defesa nacional.Chamava-se ARPANET. Mas, deixemos os detalhes para o Google e vamos nos concentrar nos dias de hoje e as consequências desse enorme crescimento.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”

Com essa frase criada por Stan Lee, Tio Ben explica para o sobrinho Peter Parker – Homem Aranha, que ter o poder não basta. Existem responsabilidades. Na internet é a mesma coisa. A diferença é que o poder está nas mãos dos donos da rede. Aqueles que souberam como explorar o crescimento e o comportamento de seus utilizadores.

Nem sempre essas entidades se mostram responsáveis o suficiente para cuidar de nossa segurança digital. A expansão da rede ficou de tal forma fora de controle que podemos dizer que se tornou terra de ninguém.

FaceAPP

A aplicação que viralizou nos últimos tempos, pode ser uma armadilha perigosa. O programa usa uma foto sua para lhe mostrar como seria se fosse de outro género. Segundo especialistas, a aplicação pode estar armazenando fotos para bancos de reconhecimento facial. Como grande parte dos programas na rede esse foi desenvolvido por uma empresa russa, a Wireless Lab, e usa uma política de privacidade nada confiável, que não especifica o que vai fazer com sua foto após processá-la.

Antiga conhecida dos usuários, a Wireless Lab, foi também autora da aplicação de envelhecimento, que em 2019 viralizou e apresentou várias falhas. Uma delas, sobre o destino de sua imagem. A empresa alega que se pode apagar os dados da nuvem a qualquer momento, mas se você entrar no menu de Suporte, não haverá a opção na tela.

Se você preza pela sua segurança, resista à curiosidade e não instale a aplicação. Espere uns anos e poderá testemunhar como ficará, sem que seus dados corram perigo. 

Outras aplicações como essas duas irão surgir, certamente, todas com o apelo da curiosidade. Alguns especialistas dizem que se você tem uma conta numa rede social e tem fotos nela, já é o suficiente para ser um alvo para os interessados em seus dados.

David Vaile, presidente da ONG Australian Privacy Foundation, é objetivo em dizer: “Não use”. Segundo ele, a licença é tão insegura que os desenvolvedores podem alegar que você deu permissão para o uso de suas imagens e dados.

Preguiça e abandono

Associado a isto, temos o comportamento das pessoas que por alguma razão, encontram na internet, principalmente nas redes sociais, um tio simpático. Aquela companhia que não julga, que dá apoio às nossas carências. E carentes não faltam e são exatamente essas as vítimas de golpes e de sua própria ingenuidade. Outro percentual dos incautos, são os desinformados. Esses são os que por desconhecimento de como se cuidar na rede, aceitam todas as aplicações que lhes oferecem, todos os convites, entram em todos os jogos e salas eletrónicas que se apresentem.

Por falta de esclarecimento dados são roubados em todo o mundo. Tudo por um clique.

Algumas dessas pessoas, são vítimas porque não querem ficar para trás. Se meu amigo fez, eu também faço. Esse comportamento é a chave que alimenta essas redes de coleta de dados mundialmente.

Aplicações perigosas

De tempos em tempos, alguma aplicação nova é lançada pelo FaceBook, Instagram ou outra rede social. Pode ser um jogo, um programa engraçadinho que muda seu rosto ou que mostra como ficará quando envelhecer, como o FaceAPP, por exemplo. São sensacionais. Impressionantes mesmo! O que a maioria não sabe é que todos tem um elemento em comum. Todos pedem sua autorização para lidar com seus dados e caso você não aceite, não conseguirá instalar, mas então como vou poder me ver mais velho, ou com outro género? Acabamos aceitando e independente de qualquer coisa, não lemos os contratos, que por sinal, são propositadamente longos e entediantes. Pronto. Você foi apanhado. 

Ao ver o nome de entidades como FaceBook, Instagram, Google e outros associados à aplicação, a primeira coisa que lhe ocorre é que são confiáveis. Não são. O próprio FaceBook não é confiável. Os dados de seus usuários são usados, nem sempre para meras estatísticas. Eles são distribuídos de forma perigosa para uso diversos. Veja o caso FaceBook / Cambridge Analytica em 2015. Os dados de 87 milhões de utilizadores, identificáveis, do FaceBook foram usados para ajudar campanhas políticas no Estados Unidos. O escândalo custou à rede social uma multa de 560 mil euros. 

Se situações como essas acontecem com empresas aparentemente confiáveis como o FaceBook, imagine então, com desenvolvedores de aplicações para telemóveis que não tem o mesmo poder de controle sobre os dados recolhidos de seus utilizadores.

Tudo que vai para o seu telemóvel é perigoso

Na verdade, todas as aplicações que você instala no seu telemóvel pedem que você aceite liberar seus dados, seu microfone e sua câmera. Ao aceitar, está aberta a porta para o mundo dos hackers, e a venda de suas informações para quem interessar.

Um momento de diversão pode lhe causar horas de dor de cabeça.

Você já deve ter se perguntado, como pode uma aplicação tão interessante ser gratuita? Bom, agora você já sabe de onde vem o dinheiro: de seus dados.

Existem aplicações confiáveis

Acreditar na bondade universal é uma prova de ingenuidade. Sempre devemos desconfiar, mas como faremos se não podemos instalar aplicações? Calma. Há meios e aplicações que você pode confiar. Geralmente estão ligadas a meios de notícias, meios sérios como revistas, jornais, etc. Aplicações ligadas à grandes corporações que desenvolvem programas de produtividade e têm versões para telemóveis. O problema está principalmente nas aplicações com novidades incríveis e jogos. Aqueles efeitos interessantes para os telemóveis, as ferramentas que facilitam sua vida, todos são uma porta aberta para sua insegurança e a sua perda de dados pode ser fatal. Essas aplicações vão vasculhar seu telemóvel ou mesmo seu computador em busca das senhas e imagens que consigam para vender aos bancos que mais tarde usarão para fins nem sempre nobres ou responsáveis. No Brasil a Google e a Apple, responsáveis pela distribuição das aplicações, foram multadas por download do FaceAPP, receberam multas milionárias (3.219.806,36 € ambas), por representar a empresa russa Wireless Labs. Na base do processo está a falta de seriedade na proteção de dados. Na Europa o caso está a ser investigado desde 2019, mas nada foi concluído ainda.

Como se proteger?

A proteção de dados passa por diversas fases. A primeira é a sua experiência com informática. Não dê a desculpa de que é velho, pois a informática já existe e provavelmente você nasceu com ela. Há algumas formas para proteger seus dados, mas nenhuma será melhor do que seu conhecimento e o cuidados com as precauções permanentes. No caso de você querer ou precisar muito de aplicações, é bom lembrar que há truques que te protegem um pouco mais.

Não use sempre a mesma palavra-passe para tudo. Tente ter sempre palavras-passes diferentes. Os hackeres sempre tem em conta que se uma senha é usada para entrar em uma revista, por exemplo, ela poderá ser repetida no seu banco. Troque sempre que se inscrever em algum lugar ou aplicação.

Evite de todas as formas fazer login usando o FaceBook ou o Google. Essa forma fácil e até preguiçosa pode ser seu fim. Resista com todas as forças e entre usando login e palavra-passe. Ao se registar num site ou aplicação com as redes sociais, você deixa aberta as portas para que os hackeres conheçam e tenham acesso a todas as outras chaves de seu cadastro.

Programas especiais para palavras-passes

Há meios para se manter seguras suas palavras-passes e ao mesmo tempo poder assegurar-se que não precisará lembrar de cada uma delas. Você pode até aceitar aquelas palavras-passes extremamente complexas que as aplicações oferecem, pois na verdade você só precisará lembrar de uma. A palavra-passe mestra. Todas as outras estarão guardadas e encriptadas dentro dessa aplicação. Normalmente, elas podem ser instaladas em seu computador e no telemóvel. Esses programas podem guardar todas as palavras-passe de forma segura e nenhum hacker vai poder acessá-las, desde que você tenha o cuidado de sempre sair do programa após usá-lo. Afinal, não vai querer colocar a fechadura depois de ser assaltado, não é?

Vamos apresentar 5 programas para que escolha o que pode lhe interessar mais. 

LastPass – Gratuito ou Pago
Esse é a nossa primeira escolha. Tanto funciona no telemóvel como no computador, usando a mesma base de dados. Ou seja, se estiver na rua e precisar a senha do banco, basta aceder e ele listará as suas senhas de banco. Mesmo que você as tenha atualizado antes de sair de casa. Tem tudo na versão gratuita, mas se preferir uma versão paga  ($12,00/ano), você terá a disponibilidade para até cinco utilizadores e mais alguns itens de organização.

1Password – Gratuito ou Pago
Funciona como o LastPass, porém oferece mais modalidades de pagamento, além da versão gratuita e tem mais capacidade de utilizadores e GBs armazenados.

Keeper – Gratuito ou Pago
Ele também funciona como os anteriores, mas tem uma espécie de botão de pânico. Permite apagar dados em caso de emergência. Na versão paga, também permite armazenar fotos e vídeos.

Dashlane – Gratuito e Pago
Essa aplicação oferece a guarda de palavras-passes e também um mecanismo de pagamento online. Na versão paga (US$39,00) permite o compartilhamento de palavras-passes com um número ilimitado de utilizadores.

RoboForm – Gratuito
É a interface mais simples de usar, mas também é a mais limitada. Funciona em Android e iOS.

Se for escolher um deles, procure o que lhe oferece proteção tanto no PC quanto no telemóvel e em ambos os sistemas operacionais (Apple e Android). 

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