Morte e solidão. Quanta culpa carregamos?

16/05/2020

Ao fundo da sala, um homem com os seus 94 anos chora desamparado. Quando alguém se aproxima para o consolar verifica que ele tem na mão uma fotografia antiga, que retrata uma mulher de uma simplicidade singela. Com voz trémula lá diz que era a sua mulher. Há uns dias ela partiu para a eternidade, vítima da doença de que hoje todos falam. Por também estar infetado, ele não se pôde despedir da companheira de uma vida. Estiveram casados durante 70 anos, com altos e baixos, mas diz nunca ter faltado o respeito entre ambos. Não tiveram filhos. Eram os dois o amparo um do outro. Questiona-se sobre o que vai fazer para casa agora, sem a ter por perto. Para este homem, habituado à mesma companhia ao longo de vários anos, a vida perdeu o sentido. Já não sabe viver sem ela. É emocionante apreciar a expressão do amor ao fim de tantos anos. Um amor que não acabou mesmo quando foram separados pela morte. Sem dó nem piedade.

Perder alguém de quem tanto gostamos é um evento avassalador. É como se nos tirassem o chão debaixo dos pés. De repente, tudo muda. Ficamos desnorteados, deambulamos pelo caminho, até percebermos que temos duas opções: ou nos agarramos à vida que nos resta ou entregámo-nos à morte. A partir daqui os nossos objetivos de vida sofrem uma redefinição e talvez passemos a valorizar mais os pequenos momentos que passamos com aqueles que nos dizem tanto e por quem o nosso coração palpita.

Para quem já viveu uma vida longa e acabou de perder a sua companheira de anos a fio é mais difícil agarrar-se a algo que já não lhe faz sentido. A perda dói. Mas saber que ela partiu sem consolo e sozinha, aumenta a dor. Imaginem o que sentiriam se perdessem um familiar próximo e não se pudessem despedir dele. É uma sensação de abandono, de culpa, de negação, de tristeza. É um luto que demorará a ser feito; um vazio que com o passar do tempo vai aumentando.

Dizem-nos que são as circunstâncias que nos obrigam ao distanciamento. Até mesmo na morte. Mas para nós, que fomos habituados a velar de forma sentida o corpo e a alma dos que morrem, não nos é fácil entender que temos de deixar ir, sozinhos, quem em vida nos amparou e suportou o nosso sofrimento; quem nos estendeu a mão quando todos os outros nos viraram as costas; quem nos amou incondicionalmente; quem daria a vida por nós. Não nos é fácil aceitar o sentimento de abandono dos nossos, entregando-os à sorte da morte como se de animais se tratassem.

São as circunstâncias a que uma pandemia nos obriga. Impõe-nos um distanciamento social com o objetivo de protegermos os outros e a nós, tanto em vida como na morte. Aos olhos do comum dos mortais, é difícil entender que, onde dantes se falava em humanização de cuidados, agora fala-se em distanciamento. Talvez seja uma contradição necessária para aprendermos, à força, o valor do toque, de uma abraço ou de um beijo.

Para quem morre, as preocupações mundanas terminaram. Para quem sobrevive, fica a saudade. O peso da culpa e a incompreensão do abandono são sentimentos que podem surgir, os quais teremos de aprender a deixar ir, para nos libertarmos das amarras da morte e vivermos o tempo que ainda nos resta. Não precisamos de carregar nos ombros o peso de não termos estado lá. Precisamos antes de nos desculpar e interiorizar que, naquele momento, fizemos o que estava ao nosso alcance, impedidos por uma circunstância anormal que motivou medidas excecionais.

Para muitos, o processo de luto não será fácil e talvez venham a precisar de ajuda profissional. Este consiste na reação a uma perda com significado pessoal profundo, caracterizado por várias fases, como o choque, a negação emocional, a descrença, o reconhecimento ou desorganização emocional (que é quando “cai a ficha”) e a aceitação. Podemos não passar por todas estas fases de forma sequencial ou até mesmo não vivenciar algumas delas. O tempo não apaga a dor, mas ajuda a cicatrizar. Para os que não conseguirão ultrapassar esta experiência sozinhos, pedir ajuda não é vergonha, antes pelo contrário, é um ato de coragem reconhecer que estão no limite das suas forças e que necessitam de apoio para superarem um evento emocionalmente desgastante.

Related Posts

Câmara de S. João da Madeira investe dois milhões na recuperação do Pavilhão das Travessas
30 anos de Viagem Medieval assinalados com regresso ao Condado Portucalense
Semana Santa arranca em Santa Maria da Feira com a Imposição das Cinzas

Leave a Reply